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Juros altos favorecem ricos e banqueiros e penalizam pobres

8 de fevereiro de 202317 de fevereiro de 2023
Juros altos favorecem ricos e banqueiros e penalizam pobres

Francisco Alexandre

A decisão do Banco Central de manter a taxa básica de juros em 13,75%, ou 7,5% reais acima da inflação, também conhecida como a maior taxa de juros do mundo, significa manter os rentistas ganhando muito às custas de milhões de brasileiros que sofrem diante da fome, desemprego e miséria.

O ciclo de alta dos juros atingiu 9,75% em dezembro em 2021, frente a uma inflação de 10,74%. Elevação justificada como necessária para conter a inflação gerada pela escassez de produtos em decorrência da pandemia da Covid-19.  Os juros continuaram subindo e fechou 2022 em 13,75%, mesmo com a inflação tendo caído para 5,79%.  As alegações para manutenção de juros nas nuvens tem sido a cantilena sobre o equilíbrio fiscal, se a dívida do governo irá diminuir e coisas do tipo.

O financiamento das contas públicas por meio de venda de títulos do governo não é particularidade do Brasil. É assim em todo o mundo. O endividamento dos Estados Unidos atinge 129% do PIB, no Canadá 113%, em Portugal 114%, na França 113%. A média de endividamento na Zona do Euro é de 95,5% do PIB. Nesses países a maior taxa real é do Canadá, negativa em -1,62%, na França – 4,0%, em Portugal -5,4%, nos Estados Unidos -1, 8%. Na Zona do Euro a taxa real média é negativa -6,14% ao ano.

Comparar o Brasil com os países ricos leva muitos a esgrimir de forma apressada argumentos contrários. Contudo, as nossas taxas são proibitivas com qualquer comparação. Nos países do mesmo grupo, a Argentina tem endividamento de 93% do PIB a taxa real de juros negativa de -10%. O Egito, que deve 87%, tem taxa negativa de -4,3%. Na Índia, com 90% na relação dívida PIB, a taxa é 0,5%, enquanto no México, com 70% de dívida, tem taxa de juros negativa de -1,43%.

Outro indicador que influencia na taxa de juros é o risco-país, o que é levado em conta tanto para o investidor interno, quanto os externos. Nesse quesito, o Brasil tem taxa de risco menor que a Argentina, Colômbia, México e Egito, todos esses com juros menores que os nossos. 

A definição da taxa básica de juros tem entre os fundamentos o nível de inflação, demanda aquecida e o rigor fiscal entre outras variáveis. Mas por aqui fica difícil concordar com decisões que vão na contramão do que acontece mundo afora, onde a maioria das taxas de juros reais são negativas ou muito baixas, ainda mais quando o nosso nível de inflação reduziu à metade desde o ano anterior, quando a perspectiva de crescimento do PIB é apenas 1,2%, menos da metade do nível considerado suficiente para o crescimento sustentável do país, evidenciando que não há inflação de demanda.

A nossa relação dívida PIB é menor que a de muitos países, o nosso risco é menor, a taxa de inflação é declinante, somos a 13ª economia do mundo. Então, o que pode justificar taxa real de juros tão alta por anos a fio? Eis a questão.

No Brasil, os bancos e fundos de investimentos são os credores de cerca de 70% da dívida pública, e os estrangeiros de outros 10%. Ou seja, é a mesma parcela de 10% da população que detém atualmente 79% de toda a riqueza do país que lucra, segundo dados do relatório da desigualdade mundial World Inequality Report de 2022, com o absurdo ainda maior representado pelo 1% de milionários, que detém mais de 48% de toda a riqueza do país. Enquanto isso, a parcela de 50% da população pobre detém apenas 0,4% da riqueza nacional. Isso mesmo, quatro décimos por cento, e é chamada a pagar os juros que os ricos recebem do governo.

A manutenção de juros tão elevados serve apenas para os que exploram o país, para os que receberam no ano passado mais de R$ 590 bilhões de juros do governo federal, para os bancos que dobram de tamanho no Brasil em média a cada 4 anos, enquanto no mundo civilizado são necessários 8 anos. Serve aos muito ricos, que não pagam imposto sobre dividendos, que se beneficiam de tributação média de 7,1% sobre a renda, segundo dados da OCDE.

Para os que ganham com juros proibitivos não importa se o país cresce ou não, se o povo volta a comer, se as políticas sociais de governo são implementadas. Para estes, diferentemente do que é a prática no resto do mundo, onde o financiamento da dívida pública é feito a taxas que servem mais para corrigir o valor do dinheiro no tempo, com muitos países sequer corrigindo a inflação. Enquanto aqui a prática é pagar bem para os endinheirados manterem dinheiro debaixo do colchão, ou seja, emprestando ao governo, pois eles não têm projetos de investimentos para destinar fortunas acumuladas ano após ano graças à taxas proibitivas de juros.

Francisco Alexandre é ex-diretor eleito de Administração da Previ

(Publicado originalmente no portal Brasil247)

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